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Quando o álcool torna-se dependência: A difícil missão de parar

Quando o álcool torna-se dependência: A difícil missão de parar

O consumo de bebidas alcoólicas torna-se um problema quando efeitos e consequências do uso abusivo são perceptíveis e vivenciadas, mas, falta iniciativa para lidar com situações de prejuízo pessoal e social.

A fissura ou a vontade de beber começa a fazer parte dos hábitos rotineiros frequentes do usuário. A alteração das funções cerebrais relacionadas, diretamente, ao humor, percepção, consciência e padrões comportamentais o afastam de suas pretensões sociais até então, valorizadas. Compromissos, empenho ao trabalho e outras atividades, antes priorizadas e executadas com motivação e prazer, tornam-se secundárias e, sem importância, diante a necessidade da ingestão do álcool.

A bebida alcoólica classificada como droga lícita, liberada para comercialização e consumo, apresenta, no cenário de divulgação do uso, um rico “arsenal” de imagens nas propagandas, com alto poder de persuasão. A participação de forma direta e maciça dos meios de comunicação contribuem para disseminar a idéia da bebida ser, indispensável, em todos os momentos de confraternização e lazer: como se não fosse possível sentir-se bem e feliz, com a ausência do álcool no organismo.

O problema do uso abusivo de substâncias psicoativas, quando caracteriza o quadro de dependência química, engloba amplos aspectos de intervenções profissionais. Pela instauração de prejuízos psíquicos e fisiológicos é imprescindível a participação do médico psiquiatra para prescrição medicamentosa e psicólogo para acompanhamento de questões psicológicas que agravam o problema.


O início do problema com substâncias alcoólicas.

A sociedade valora padrões específicos de consumo que incluem o uso da bebida para fins de lazer, conforme mencionado. O problema é quando ultrapassa essa finalidade e o uso da substância começa a fazer parte de todas as áreas da vida do indivíduo e, não somente ao lazer e, consequentemente, o uso esporádico começa a ser diário e o usuário não consegue mais imaginar como seria sua vida sem o uso da bebida alcoólica.

Ao mesmo tempo, como houve o incentivo social ao consumo, é difícil admitir que a necessidade da substância ultrapassou os limites considerados toleráveis ao organismo, sob ponto de vista de não alteração permanente das funções psicomotoras, cognitivas e dos órgãos vitais, por isso, é muito complexo assumir, inicialmente, a falta de controle para parar o uso.

A substância passa a determinar todos os contextos e, o comportamento social do usuário, começa a envolver somente programas que incluem o uso da bebida.

As sensações de prazer e motivação geralmente associa-se que, quase exclusivamente, ao uso do álcool e mesmo outros contextos sociais que anteriormente também despertavam emoções agradáveis não são mais vivenciados como antes, a não ser que também incluam a bebida. Em contrapartida para evitar contato com emoções desagradáveis, como frustração, tristeza, o uso do álcool começa também a ser o artifício, apresentando-se, nesse caso, como estratégia de fuga emocional.


O processo de busca por ajuda

Ao mesmo tempo em que a sociedade estimula o uso de álcool em todos os eventos sociais, a retaliação ao usuário também se faz presente quando ele deixa de cumprir seu papel profissional, pessoal ou familiar. Vivenciar a retaliação ao hábito de beber é uma experiência dolorosa e, inicialmente, difícil de ser entendida, pois o individuo experimenta e é incentivado a tornar-se um usuário, pelo caráter lícito do consumo e, de repente, em sua percepção, ser um usuário lhe dá o rótulo de incompetente no trabalho, péssimo pai/mãe ou marido/esposa para sujeitos que tem filhos(as) ou relacionamentos conjugais.

Antes a bebida era a solução de todos os problemas e isso era reforçado socialmente e agora, o álcool se apresenta como seu inimigo. Diante dessa vivência paradoxal do bem e do mal com a bebida e de admitir que há uma linha muito tênue entre o beber social e o descontrole do hábito de beber, o individuo vivencia a dor de admitir que não tem mais controle sobre sua autonomia como tinha antes. Agora, ainda precisa lidar com os contextos sociais de ver conhecidos ou outras pessoas bebendo e aparentemente tendo controle de parar ou dos comercias e propagandas que, desconsideram os problemas de saúde publica da dependência alcoólica e continuam incentivando o consumo.

A bebida alcoólica como droga lícita e incluída culturalmente como hábito de brindes e comemorações festivas, dissemina o incentivo ao uso e encarar, mais uma vez esse contrassenso torna a luta da mudança de hábito de ingerir substâncias alcoólicas algo ainda mais oneroso e complexo.


A escolha de se livrar de um hábito aprovado socialmente

A escolha de parar com o hábito de ingerir bebida alcoólica depende do quanto o sujeito está disposto a questionar o valor dos padrões sociais para sua vida. Tudo o que tem aprovação social é algo que nos parece normalmente certo dentro da formação de nosso juízo de valor. Por isso que os usuários consideram que o correto no tratamento da dependência alcoólica é não parar totalmente de beber, mas sim, conseguir ingerir a bebida dentro de padrões sociais do beber com moderação. Nesse caso, o que é de fato beber com moderação? Será que é prazeroso para nós e para as pessoas de nosso convívio social, manter um hábito que causou tantos prejuízos em diversas áreas de nossa vida? Será que podemos considerar a moderação quando ela já não faz mais parte de nosso hábito ou, quando minha iniciativa de beber desperta o repúdio alheio daqueles que fizeram parte da minha história de danos morais e sociais, em consequência da ingestão do álcool?

A decisão parece não mais depender de nossa vontade, por isso que é comum verbalizações: “...quando eu percebi já estava lá bebendo outra vez e não consegui parar”

A autonomia parece voltar-se unicamente a programas envolvendo o uso da bebida: “Não acho mais graça quando a bebida não está presente e quando estou triste lá estou eu pensando em como poderia melhorar com uma única dose ou quando estou feliz, nada melhor do que comemorar com a bebida”

Passar em frente a lugares onde mantinha o hábito de beber ou ouvir as pessoas dizerem que eu não sou mais o mesmo, quando percebem que não estou mais ingerindo a bebida, torna mais difícil desfazer o vínculo social com o hábito de beber.

Somente quando percebemos que pode ser prazeroso questionar e até mesmo, criticar hábitos aprovados socialmente, podemos acreditar em nossa capacidade de ser diferente. A diferença, nesse caso, nos garante a oportunidade da sensação de inclusão em um grupo social, mesmo não se comportamento, como os demais, quanto ao hábito de beber.

Muito importante assumir que diante de uma experiência de descontrole diante da bebida eu não preciso beber para testar meus limites. Ao contrário, assumir que o hábito de beber me torna sem limite é assumir que minhas experiências negativas podem me ensinar também até onde posso acreditar que nem sempre devo adotar para minha vida, os parâmetros sociais que os outros adotam. Nem por isso, posso me excluir ou me achar incapaz. Quando eu perco minha autonomia diante da bebida e me torno sem limite e sem controle de quando parar, consequentemente, torno-me incapaz de garantir para mim a minha capacidade cognitiva, psicomotora e a funcionalidade dos meus órgãos vitais preservada.

Motivar-se a parar com o hábito de ingerir bebida alcoólica quando percebo grande prejuízo e comprometimento a minha saúde psíquica e física, depende de como posso repensar e atribuir novos valores a convenções sociais.

Por Andréa Bogatti Guimarães Tomazella, em 22 de Fevereiro de 2019